O modelo convencional de organização do trabalho educacional nas escolas tem muitas mazelas. Uma das mais graves é sem dúvida colaborar decisivamente para o embotamento da habilidade de criar perguntas por parte das(os) estudantes. Por anos à fio estas(es) são submetidas(os) a respostas, e mais respostas, conteúdos muitas vezes exacerbadamente diretivos que podam mais e mais o espaço para formulação de perguntas.
O resultado são estudantes que se vêem em uma encruzilhada confusa e sem sentido quando instados a criarem perguntas sobre determinados assuntos que a professora(o) queira debater com as(os) estudantes.
Obviamente não é possível generalizar tais afirmações para toda e qualquer circunstância, mas é fato que muitas vezes será uma tarefa difícil para as(os) estudantes criarem livremente perguntas sobre temas gerais, sobre os quais tenham interesse, e por vezes mais ainda de temas específicos que as(os) professores queiras trabalhar.
Deste modo, precisamos trazer de volta à vida estas(es) estudantes, como quem recupera um paciente de um grande trauma.
Uma possibilidade interessante neste sentido, é praticar com as(os) estudantes, o simples ato de perguntar. Podemos solicitar que elas(es) elaborem algumas perguntas de tema livre, e que depois justifiquem tais perguntas, isto é, expliquem por quais razões elas(es) gostariam de investigar e saber a resposta de tais perguntas.
Abaixo temos alguns exemplos de perguntas formuladas por estudantes do 9º ano, de uma escola pública de Florianópolis, em 2023:
Por que o tempo passa tão rápido?
Por que a gente não pode ler a mente dos outros?
Por que a gravidade puxa em vez de soltar?
Por que a gente vê as estrelas no passado?
Por que precisamos ir à escola? [ Fazia parte do exercício justificar as perguntas, isto é dizer por que a(o) estudantes gostaria de estudar tal pergunta. Neste caso a justificativa foi: “gostaria de saber o por que ainda precisamos nos submeter a um sistema ultrapassado e tão cansativo que nos sobrecarrega”.]
Por que o sistema capitalista ainda é predominante na maioria dos países do mundo?
Por que gosto de amarelo?
Por que gosto de liberdade sendo que não estou presa?
Por que quero ser boa em algo?
Por que as pessoas seguem um padrão de vida?
Por que desejamos algo que não podemos ter?
Por que existimos se um dia ninguém lembrará de nós?
Por que não agradamos todo mundo com nossas atitudes?
Por que pessoas têm opiniões diferentes?
Por que precisamos de certas coisas para sobreviver?
Posteriormente as perguntas podem ser também sobre algum tema mais específico, como por exemplo, perguntas sobre a História como campo e dimenssão do conhecimento.
Por que Hitler achava os judeus uma raça impura?
Como a Alemanha avançou tão rápido na II Guerra Mundial?
Por que as crianças judias tinham que ir ao campo de concentração?
Por que as pessoas foram capazes de pensar em escravidão? [conversando com a estudantes, ela queria saber como as pessoas foram capazes de imaginar a escravidão, como ousarão pensar em escravizar outras pessoas, isso para ela já é suficientemente grave, quanto mais impor a escravidão de fato à outras pessoas]
Por que matavam as pessoas por expressarem sua opinião?
Por que as pessoas fazem guerra se é mais fácil conversar?
Por que a Igreja Católica tinha mais importância/ influência do que uma vida?
Por que mesmo depois de fazerem tantas coisas, as mulheres ainda têm pouca voz?
O fato é que em geral, basta criar a oportunidade para as perguntars surgirem que elas surgirão.
Como suporte para tal atividade sugerimos textos sobre o assunto para motivar o debate.
Nossas duas sugestões são famosas na EJA/PMF, e tais textos são utilizado há muitos anos. São eles:
2 – Sou uma pergunta (atribuído à Clarisse Linspector)
Vale dizer, que como afirmamos acima, faz parte do exercício de formular perguntar, também o exercício de justificar tais perguntas, isto é, dizer e buscar entender o porque queremos saber mais a respeito de tal pergunta; do porque queremos buscar responder a tais perguntas. Além de uma exercício de autoconhecimento, é sem dúvida um dos primeiros e mais fundamentais passos para um projeto de pesquisa.
Boas perguntas!

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